Editorial

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Todos sabemos que a criança que fomos continua dentro de nós e se faz presente de muitas formas na idade adulta.

Estudos comprovam, iniciando na gravidez, os primeiros três anos de vida são essenciais para o desenvolvimento humano.

Quem experimenta o abandono durante a infância vai sentir, invariavelmente, um medo incontrolável de ser deixado ao longo da vida.

Quando se fala em abandono não se fala apenas em casos em que a criança é literalmente abandonada pelos seus pais, há crianças que são abandonadas através da negligência das suas necessidades básicas, de falta de respeito pelos seus sentimentos e pela manipulação através da culpa.

Estas crianças abandonadas psicologicamente, emocionalmente ou realmente, entram na vida adulta com uma noção profunda de que o mundo pode ser um lugar perigoso  e geralmente a sua auto-estima torna-se muito baixa, tendo muita dificuldade em confiar nelas próprias ou nos outros.

Quando na infância somos rejeitados de alguma forma, seja ela a nossa maneira de pensar, olhar, sentir, comer ou existir não obtendo reconhecimento do nosso valor, é inevitável que este sentimento seja registado como abandono porque de algum modo, inconscientemente, abandonamo-nos a nós próprios para nos tornarmos em quem esperam que sejamos.

Sente-se abandonado quem não se sentiu amado.

É muito frequente crianças que crescem em famílias muito disfuncionais sofrerem a negação do seu verdadeiro eu.

As crianças que sofrem em silêncio aprendem a reprimir os seus sentimentos  pois, uma criança só pode demonstrar o que sente quando tem alguém que a aceite completamente, ouvindo, compreendendo e dando-lhe apoio. Caso contrário, crescerá de modo a revelar apenas o que é esperado dela e muito dificilmente saberá com verdade o que existe de si mesma por trás das máscaras que teve que criar para sobreviver e acreditar, e fazer acreditar, que é feliz.

Estas crianças, mais tarde adultos, podem desenvolver uma busca desesperada por esse amor entrando muitas vezes em conflito constante entre a necessidade de ser cuidado e o medo de ser abandonado.

A sensação de ter valor é essencial à saúde mental e essa certeza deve ser conseguida na infância, daí a responsabilidade do acolhimento nas casas da Ajuda de Berço como local para resgate da auto-estima e amor-próprio das crianças, onde estas se podem reencontrar consigo mesmos para serem cuidadas de forma a que as feridas provocadas na infância não contaminem a vida adulta.