Adopção

Adopção

A equipa técnica da Ajuda de Berço tem como principal objectivo a definição de um projecto de vida para cada uma das crianças que se encontra acolhida na Instituição, tendo como preocupação todo o trabalho desenvolvido e intervenção efectuada: as famílias, o harmonioso desenvolvimento das crianças e seu superior interesse. Privilegiando sempre a família biológica e como impõe a Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, “a intervenção deve respeitar o direito da criança à preservação das relações afectivas estruturantes de grande significado e de referência para o seu saudável desenvolvimento, devendo prevalecer as medidas que garantam a continuidade de uma vinculação securizante” (artº 4º, alínea g)). No entanto, quando a integração na família biológica compromete o desenvolvimento saudável da criança, impõe-se a definição de um projecto de vida alternativo, que pode passar pelo encaminhamento para adopção.

Ao longo dos 18 anos de funcionamento da Ajuda de Berço, foram acolhidas um total de 354 crianças, das quais 132 foram encaminhadas para adopção. A integração de uma criança junto de uma nova família/realidade é um trabalho cuidado e exigente que consiste em:

  • Após sentença com decisão judicial, compete à equipa técnica e à equipa pedagógica a reunião de toda a informação referente à criança em questão (cópia de documentos pessoais; relatórios social, psicológico e pedagógico; informação clínica; álbum de apresentação da criança – livro com fotografias da criança, onde são descritas as suas rotinas, bem como as aquisições de desenvolvimento durante o seu acolhimento na Ajuda de Berço- em suma, a sua história pessoal). Toda a documentação reunida é enviada à Unidade de Adopção, Apadrinhamento Civil e Acolhimento Familiar (Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) – entidade responsável pelo estudo e selecção das pessoas candidatas à adopção.
  • Tendo em conta a idade da criança, as suas características individuais e a sua história pessoal, a equipa técnica irá definir estratégias sobre a melhor forma de preparar a criança para este encontro. Estratégias estas que têm em conta questões que se prendem com a escolha da pessoa indicada para acompanhar a criança durante a integração, considerando a existência prévia de uma relação com a criança, que lhe permitirá funcionar como um “porto seguro” ao qual a criança possa recorrer em momentos de tensão ou insegurança sentidos; preparação do espaço físico dentro da casa, o qual deve proporcionar o mínimo de privacidade à família adoptante e criança; assegurar que existem materiais de fácil acesso que possam servir de descloqueadores nas interacções entre adulto(s) e criança(s); num primeiro momento assegurar a prestação de todos os cuidados à criança – cuidados de higiene, alimentação e brincadeira; informar as pessoas da instituição relativamente à saída da criança (durante o acolhimento foram criados laços com a criança, havendo com a saída a quebra desses laços, sendo por vezes facilitador para a aceitação da saída, a sua participação, mesmo que seja apenas na passagem de alguma informação que considere importante).

No momento da integração e pela experiência obtida na Ajuda de Berço, consideramos poder diferenciar 5 momentos no processo de integração:

1º – Contacto inicial com a família adoptante: ocorre dentro do espaço da instituição, juntamente com as técnicas da equipa de adopções, ainda sem a presença da criança. Cria-se um espaço onde a família adoptante possa esclarecer qualquer dúvida que tenha face à criança, definindo-se um plano de acção que poderá ser flexível tendo em conta a adaptação desta à família e vice-versa.

2º – Encontro entre criança e família adoptante: ainda no espaço da instituição, com a presença dos técnicos. À medida que a criança se vai sentindo mais segura os técnicos vão-se afastando gradualmente no espaço físico, permitindo uma maior privacidade à criança e família , que aos poucos ganha autonomia para assumir a prestação dos cuidados da criança ao longo das suas rotinas diárias (banho, refeições, mudança de fraldas, deitar, levantar, etc).

3º – Encontro entre a criança e família adoptante fora do contexto da instituição: neste momento a criança já sente alguma segurança junto da família adoptante pelo que se torna possível a transição para um espaço neutro a ambos, saída para um jardim, por exemplo. A pessoa responsável pela integração acompanha-os, gerindo a sua proximidade ou afastamento consoante a sua leitura das necessidades quer da criança, quer do casal.

4º – Ida a casa: este momento está dependente da existência ou não de um espaço preparado pelos pais para a criança podendo ser adiado mediante este factor. Sempre que possível é previamente “trabalhado” com a criança mostrando-lhe fotografias da casa, por exemplo. O técnico responsável, mais uma vez acompanha a criança e permanece até que estejam reunidas a condições para se poder vir embora e aguardar o regresso da criança à instituição – a criança deixa de procurar o técnico como figura de referência, explora de forma activa e com entusiasmo o novo espaço, aceita ficar sozinha com os pais despedindo-se com tranquilidade da pessoa responsável pela integração.

5º – Saída definitiva: encontram-se aqui reunidas, segundo parecer técnico, todas as condições para que a criança possa sair definitivamente da instituição, passando a família a assumir de forma integral todos os cuidados da criança.

É aqui que se entrega à família toda a documentação pessoal da criança (boletim de nascimento, boletim de saúde, medicação, fotografias) bem como brinquedos e objectos pessoais que acumulou ao longo do período em que esteve acolhido na Ajuda de Berço. Estes objectos funcionam como objectos de transição facilitando o estreitamento dos laços entre a criança e a família, fazendo a ligação do futuro com o presente e o passado e dão à criança um sentido de continuidade no tempo e no espaço do seu próprio Eu.