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Era uma família que precisava de ajuda. Vivia numa barraca, em condições habitacionais muito degradantes, onde parece impensável alguém lá poder viver.
Nesta barraca, que não tinha portas nem janelas, água, luz ou uma cama para dormir, onde o cheiro era quase impossível de suportar por quem quer que se aproximasse, vivia um casal e os seus 4 filhos, de idades compreendidas entre os 10 meses e os 6 anos.

Era urgente retirar estas crianças deste local, tão próprio à contração de doenças, tão húmido, frio e sem o mínimo de conforto, local que colocava a vida destas crianças em risco constantemente.

Apesar da Ajuda de Berço não estar preparada nem vocacionada para receber crianças com mais de 3 anos, decidiu abrir uma excepção durante 6 meses, com 3 objectivos principais: não deixar uma situação destas continuar; não separar os 4 irmãos, habituados a estar juntos e a ajudar-se mutuamente na siuação difícil em que se encontravam; dar tempo aos pais para procurarem uma casa onde pudessem voltar a viver todos juntos, com o apoio do C.R.S.S.

O acolhimento destas crianças, nomeadamente das duas mais velhas (de 5 e 6 anos) teve repercussões a nível de funcionamento da casa; assistimos a uma destabilização das rotinas estipuladas para as crianças mais novas; procurámos uma escola nova para eles e voluntários para fazerem as deslocações diárias.

Por seu lado, estas duas crianças tiveram de se adaptar a um local que não tinha espaço nem material adequado à sua idade; e a uma nova escola a meio do ano lectivo.

A maior dificuldade sentida pelos 4 terá sido suportar o facto de estarem afastados dos pais. Os 6 meses em que estes 4 irmãos estiveram na Ajuda de Berço permitiram-nos verificar que conseguiram lidar melhor com essa dificuldade por se encontrarem todos juntos. A relação entre as 4 crianças é algo de extraordinário e comovente. Por exemplo, é o mais velho que consegue acalmar a irmã mais nova ou dar-lhe de comer quando ela não quer. Entreajudam-se, pois aprenderam a (sovre)viver em condições desumanas e inimagináveis.

Quando o período de tempo estipulado para a sua estadia estava a terminar, pudemos constatar que pouco tinha sido feito e que ainda não havia condições para as crianças regressarem à família. Os pais já não viviam na mesma barraca, habitando agora num quarto duma outra barraca de alguém conhecido. Já têm água e luz e camas onde ficar, mas só existe um quarto para toda a família.

Com o início do novo ano lectivo era necessário decidir se as crianças mais velhas mudavam de escola agora ou novamente a meio do ano, como já tinha acontecido.
O C.R.S.S. , entidade que detém a confiança judicial das crianças, apresentou a seguinte solução: os 2 irmãos mais velhos (agora com 6 e 7 anos) iriam desde já morar com os pais na barraca, iniciando o ano lectivo na antiga escola da zona; as crianças mais novas (de 1 e 3 anos) regressariam quando os pais tivessem casa nova.

Foi e é angustiante para nós assistir à separação (ainda que temporária) desta família. Um dos objectos inicialmente defendidos como motivo para admitir as crianças deixava de se cumprir e elas teriam de se adaptar a uma nova situação, agora sem uma parte de si.

Para além da permanência dos 2 irmãos mais novos na Ajuda de Berço, continuamos a apoiar esta família, fornecendo roupas, brinquedos e mantimentos com regularidade mensal.

No entamto, a resposta das crianças fez-se notar: uma delas fez recusa alimentar e escolar, tendo também adoecido.

A família reune-se aos fins de semana mas as despedidas deixam marcas.

O C.R.S.S. afirma continuar a procurar uma casa mas quanto tempo vamos ter de esperar para que estes 4 irmãos possam voltar a viver em conjunto?


© 2004, Ajuda de Berço - Associação Particular de Solidariedade Social